Discriminação contra as mulheres em nome da inclusão: uma declaração do Abrigo de Mulheres e Alívio às Vítimas de Estupro de Vancouver

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1. Em 14 de março de 2019, no final de um processo falho e injusto, a Câmara Municipal de Vancouver votou pelo fim da concessão anual dada a nós em apoio ao nosso trabalho de educação pública.

2. A decisão do Conselho Municipal de Vancouver tem a intenção de nos coagir a mudar a nossa posição e prática de oferecer alguns de nossos principais serviços apenas para mulheres que nascem do sexo feminino. O status de nossa organização como um grupo em busca de igualdade e nosso direito de servir às mulheres que nasceram do sexo feminino foi reafirmado pela Suprema Corte da Columbia Britânica em 2003, pelo Tribunal de Apelação da Colúmbia Britânica em 2005 e pela Suprema Corte do Canadá em 2007.

3. A tentativa do Conselho Municipal de Vancouver de minar a nossa autonomia como um grupo de mulheres – de decidir a quem servimos, a quem nos filiamos e com quem nos organizamos – também mina as proteções que a lei nos assegurou. Tal conduta não tem lugar em uma sociedade democrática.

4. A decisão do Conselho Municipal de Vancouver de cortar o financiamento do Abrigo de Mulheres e Alívio às Vítimas de Estupro de Vancouver é discriminatória. Muitos subsídios da Cidade de Vancouver são concedidos a organizações que fornecem programas e apoiam grupos específicos de pessoas, como jovens aborígenes, idosos chineses, surdos e trabalhadores migrantes. Justamente, nenhum desses grupos foi desafiado com a exigência de que eles demonstrassem “acomodação, acolhimento e abertura para pessoas de todas as idades, habilidades... e etnias”. Tal demanda para essas organizações seria incompreensível, já que contradiria a essência e propósito de seu trabalho. No entanto, é isso que nos está sendo perguntado sob o disfarce de inclusividade.

5. Abrigo de Mulheres e Alívio às Vítimas de Estupro de Vancouver é o centro de crise de estupro mais antigo do Canadá. Desde 1973, o nosso grupo atendeu a cerca de 46.000 mulheres que procuraram o nosso apoio na sua fuga à violência masculina. Desde que abrimos nossa casa de transição em 1981, abrigamos mais de 3.000 mulheres e mais de 2.600 crianças.
A operação do nosso centro de crise de estupro e casa de transição são formas de ação direta, desenvolvidas para mulheres pelas mulheres na década de 1970, como parte da segunda onda do movimento norte-americano de mulheres. Mais do que apenas fornecer segurança imediata, oferecemos um lugar para agrupar, analisar, criar estratégias e lutar contra a violência masculina.

6. Além de nosso trabalho na linha de frente, colocamos um esforço substancial na educação pública, pois é uma ferramenta essencial para a mudança social. Somos intencionais na organização de eventos de educação pública que sejam gratuitos, abertos e acessíveis a todos.

7. Também estamos ativas nas reformas de igualdade das mulheres nacionais. No ano passado, aparecemos no caso da Suprema Corte do Canadá do assassinato de Cindy Gladue; realizamos exames cruzados e fizemos apresentações orais e escritas como uma das partes, com participação no Inquérito Nacional sobre Mulheres e Meninas Indígenas Assassinadas e Desaparecidas; e falamos à Câmara dos Comuns do Canadá e o Senado do Canadá sobre as reformas legislativas relacionadas à violência contra as mulheres.

8. Não temos dúvidas de que as pessoas cujo comportamento não é consistente com a definição patriarcal socialmente imposta de masculinidade ou feminilidade, incluindo pessoas transexuais, sofrem discriminação e violência. As pessoas transexuais merecem e devem viver em segurança e ter os direitos e oportunidades iguais que são prometidos a todos nós. Quando se trata de nossos serviços, temos um compromisso coletivo de cuidar da segurança de qualquer um que ligue para a nossa linha de crise, incluindo pessoas transexuais.

9. Como parte dos esforços contínuos para nos desacreditar, fomos acusadas de que “não apoiamos profissionais do sexo” (inclusive por um membro do Conselho Municipal de Vancouver nas redes sociais).
Nossos serviços estão disponíveis para todas as mulheres que sofreram violência masculina. Prestamos assistência a mulheres e meninas na prostituição que foram agredidas por homens, cafetões ou homens que as pressionaram para a prostituição. Prestamos assistência a mulheres que estão atualmente sendo prostituídas, mulheres que estão tentando escapar da prostituição e mulheres que foram traficadas para a prostituição.
Entendemos a prostituição como exploração sexual e violência masculina contra as mulheres. A prostituição normaliza a subordinação das mulheres. Ela explora e compõe a desigualdade sistêmica com base no sexo, raça, pobreza, idade e deficiência. Nossa análise da prostituição como uma instituição patriarcal prejudicial e nosso compromisso com a abolição é derivada das, e é reforçada para, mulheres prostituídas que nos ligam e às membras de nosso próprio coletivo que saíram da prostituição.

10. Nascer do sexo feminino ainda significa ser treinada, socializada e forçada a se submeter à dominação masculina. O fato de que nascemos fêmeas e somos educadas como meninas até a idade adulta como mulheres molda nossas vidas de maneira profunda.
A violência masculina contra nós é uma experiência dura, mas comum, e não é a única de maneira nenhuma. Nossa sexualidade é controlada e manipulada – seja punindo mulheres por não serem virgens, ou promovendo pornografia e BDSM como expressões libertadoras da sexualidade feminina. Nossa capacidade reprodutiva é controlada e manipulada – seja por meio do aborto forçado e da esterilização, pressionando as mulheres a engravidar ou forçando a gravidez das mulheres por meio de estupro.
Sermos meninas e mulheres neste mundo geralmente afeta tanto a forma como nos parecemos como a forma como agimos em privado e em público; o que nos é permitido fazer, encorajado a fazer e o que somos recompensadas por fazer; e também o que somos desencorajadas a fazer, proibidas de fazer ou punidas por fazer.
E é deste lugar, em um espaço só para mulheres, com outras mulheres, que têm a experiência compartilhada de nascer sem escolha à classe de mulheres oprimidas, nos unimos para organizar e criar estratégias para nossa resistência e nossa luta pela libertação das mulheres.

Nos últimos dias recebemos muitas mensagens de solidariedade e doações de todo o mundo. Somos encorajadas e gratas por este tremendo apoio.

A Coletiva do Abrigo de Mulheres e Alívio às Vítimas de Estupro de Vancouver